Significado: Palavra latina “Vocatio” significa:

1) O Ato de Chamar de Deus:

Para o cristão é claro que quem chama é Deus, o único que pode entrar na vida do homem com voz imperiosa, para lhe revelar a primeira finalidade para a qual o criou, o colocou na terra.

Mas a vocação só se efetiva com a :

2) Resposta do Homem a Deus:

A vocação é o encontro de duas liberdades, a liberdade absoluta de Deus que chama e a liberdade humana que responde a este chamado.

2.1. Como Deus Chama (Caminhos em que Deus deixa ouvir sua voz):

Através de um desejo íntimo e profundo que impele para um modo de ser e estar, ou que rejeita outro. Normalmente, aí reside a base de toda vocação religiosa. Costuma haver no mais íntimo da pessoa uma atração essencial para formas de ser e de viver fundamentais.

Através do ambiente, isto é, através das relações pessoais. Estas vão despertando o chamado.

Através da história pessoal ( esta talvez seja a mediação que melhor possa ser constatada no chamado vocacional.

3. Três Dimensões da Vocação Humana:

3.1. Dimensão Universal (Vocação de todo cristão)

Ensina o Catecismo da Igreja Católica (n. 1878): “Todos os homens são chamados ao mesmo fim, o próprio Deus. Existe certa semelhança entre a união das pessoas divinas e a fraternidade que os homens devem estabelecer entre si, na verdade e no amor. O amor ao próximo é inseparável do amor a Deus”.

O homem foi criado para amar, para ser um dom para Deus e para os outros. A sua vida é um dom. Todo ser humano é para o outro ser humano um sinal do Absolutamente Outro que é Deus, a Quem todo o seu ser busca e para quem caminha nesta vida.

Os outros nos arrancam da solidão, do egoísmo, de nós mesmos, e de algum modo tendem a nos empurrar para Deus. O homem, então, foi criado para a comunhão, para a vida de união com Deus e com seus irmãos pelo amor verdadeiro.

O Catecismo nos ensina: “A pessoa humana tem necessidade de vida social. Esta não constitui para ela algo acrescentado, mas é uma exigência de sua natureza. Mediante o intercâmbio com os outros, a reciprocidade dos serviços e o diálogo com seus irmãos, o homem desenvolve as próprias virtualidades; responde assim à sua vocação” (Cat. 1879).

O que é a vida Social, a Vida de Comunhão?

É uma vocação, ou seja, é uma tendência inata do ser humano, e não uma manifestação casual e passageira em sua vida. È o homem e a mulher, ou seja a comunidade humana que é representada pelos dois que são a imagem de Deus (Gen 1, 27).

É uma necessidade básica revelada pelo próprio Deus que através do escritor sagrado nos revela: “Não é bom que o homem esteja só” (Gen 2, 18). Esta passagem bíblica costuma ser interpretada somente no sentido do chamado do matrimônio, mas o Cardeal Jean Daniélou ensina que ela vai além: o que parece essencial aqui é que o homem seja feito para entrar em comunhão com os outros, que sua natureza seja comunitária. E a partir desta comunhão natural aparece o relacionamento homem e mulher como expressão da formação de uma comunidade de pessoas.

A comunhão com o outro é constitutiva da pessoa, ou seja, o homem é feito para entrar em relacionamento com os outros, para amar os outros.

Traços claros que mostram a vocação do Homem à Comunhão com os Outros:

a) Sozinho nenhum de nós pode vir ao mundo e nem muito menos pode se desenvolver como pessoa humana, isto é, não pode crescer, não pode se educar.

b) As capacidades humanas como o conhecimento, a vontade e a linguagem foram dadas ao homem para que ele vivesse a sua vocação de abertura para o outro. O corpo lhe possibilita locomover-se, tomar posse de coisas, cuidar delas, construir outras; o conhecimento coloca-o em contato com o mundo que o cerca; a vontade lhe permite escolher e amar; e a linguagem lhe permite comunicar-se.

c) Sozinho o ser humano não pode realizar as suas aspirações mais elevadas. É necessário que se una aos outros para que eles lhe ajudem a conquistá-las. É preciso a ajuda mútua para atingir um fim.

A Anti-Comunhão Originada no Pecado:

O projeto divino para o ser humano a respeito da vida em comunhão com seus semelhantes, a sua vocação para o amor foi transtornado pelo pecado, isto é, a opção pelo pecado transtornou a ordem querida por Deus na obra da criação que atingiu a vida do homem em sociedade, atingiu o âmago da vocação do homem para o amor. As narrações do assassinato de Abel e da Torre de Babel podem nos dar claras indicações disto:

Caim e Abel:

O Senhor olhou com agrado para Abel e para sua oblação, mas não olhou para Caim, nem para os seus dons. Caim ficou extremamente irritado com isso e o seu semblante se tornou abatido” (Gen 4, 1-5).

A inveja se introduziu entre os homens. Um não trabalhava mais para Deus, mas para si mesmo e quis eliminar aquele cuja vida estava voltada para Deus.

Logo que chegaram ao campo, Caim atirou-se sobre seu irmão e matou-o” ( Gen 4, 8). O assassinato se introduziu entre os homens. Não podemos esquecer as várias formas de matar da qual nos tornamos partícipes. “Sou porventura eu o guarda do meu irmão?” ( Gen 4, 9).

O homem não se sente mais responsável pela vida do outro, pelo cuidado com o outro. A conseqüência disto foi a introdução do individualismo, doença do mundo de hoje.

A Torre de Babel:

Vamos, façamos para nós uma cidade e uma torre cujo cimo atinja os céus” (Gen 11, 1-9). Antes eles falavam uma só língua, isto é, se compreendiam, eram unidos. Pelo pecado, desejavam executar empreendimentos independentes de Deus. O monumento (a Torre de Babel) era símbolo do orgulho, era a manifestação do coração soberbo e independente do homem. Os homens constituíram associações repletas de orgulho e egoísmo humano. O homem feriu sua vocação para a unidade, para a comunhão, para o amor, desprezando a fonte de sua unidade com o seu próximo, Deus. Excluindo Deus de sua vida, destrói a unidade, a comunhão, o amor. Deus é o grande outro que une os homens entre si.

Por isso deram-lhe o nome de Babel, porque ali o Senhor confundiu a linguagem de todos os habitantes da terra, e dali os dispersou sobre a face de toda a terra” (Gen 11, 9).

A unidade original da língua simbolizava a união, a comunhão, o amor entre os homens. A unidade é um dom de Deus. Porém quando o homem faz dela mau uso, ela se torna nociva: os homens não se compreenderão mais uns com os outros.

Consequências da Anti-Comunhão:

Em nós:

Quando crianças nós agimos como se fôssemos o centro das atenções, como o sol, únicos, com as pessoas e coisas girando ao nosso redor. Mas chega o tempo em que começamos a compreender que não somos o centro do universo. Neste momento é fundamental a compreensão da existência de Deus e da experiência do seu amor para que descubramos os outros de forma correta e percebamos claramente que somos chamados a conviver, a condividir a nós mesmos e todas as coisas com os outros, que somos um dom para o outro, que precisamos doar a nossa vida para o outro e que é exatamente vivendo isto, que é a nossa vocação, é que encontraremos a verdadeira felicidade e realização de nossas vidas e de nosso ser como pessoa.

Quando há o fechamento de nossas vidas para o amor verdadeiro, para a comunhão, nos tornamos egocêntricos, e ainda estaremos agindo como crianças. Daí surgem os ciúmes , a inveja, as competições, o desejo de eliminar os outros da nossa vida, a indiferença. É necessário então sairmos de qualquer círculo no qual estejamos como que fechados, pois o fechamento, a anti-comunhão impede o amadurecimento do ser como pessoa humana. A vida do ser humano torna-se verdadeiramente humana quando dimensionada para fora dele: primeiramente para o absolutamente outro, que é Deus, depois para a sociedade que o cerca e finalmente para cada um que o cerca. O que está fora de nós deve ser assim considerado de valor muito significativo.

Por outro lado a recusa em encarar a realidade e a escolha de um mundo de sonhos aonde nós somos o centro, podem levar à formação de personalidades angustiadas, solitárias e inseguras, sem uma sadia convivência humana, e por isto empobrecidas em seu fechamento, com falta da dose necessária de auto-confiança e de confiança em Deus, com dificuldades de relacionamento com Deus e com o próximo, e destinadas ao choque inevitável consigo mesmo, que mais cedo ou mais tarde deverá acontecer.

Nos outros:

Cada um de nós é um ser único, criado de modo especial por Deus, com suas capacidades, talentos e qualidades. Tudo o que você é nunca existiu antes, nem vai existir igual. Jamais existirá alguém exatamente como você. A combinação de qualidades, talentos e experiências vividas que lhe constituem é tão singular quanto sua impressões digitais. Por isto só você pode partilhar com os outros tudo o que você é, o dom que você é. Se você preferir recusar-se aos outros, eles serão privados do dom que você é.

Ter recebido do Pai a vida não quer dizer ter recebido apenas um grande e imerecido dom, mas ser dom, ter sido desde sempre pensado como dom, e por isso, encontrar a própria identidade no fato de ser vida que se doa” (Amedeo Cencini).

Alguns de nós achamos que isto não é verdade porque estamos presos às aparências, porque não nos aceitamos como somos, ou porque somos feridos em nossos primeiros relacionamentos, ou mesmo porque não fomos educados neste sentido. Às vezes precisamos da ajuda dos outros para nos relacionar, como um presente embrulhado precisa ser desembrulhado por alguém. É importante que nos abramos para receber a graça de compreender que EXISTIMOS e SOMOS para Deus e para o outro.

O ser humano não é para o seu semelhante nem um OBJETO do qual possa se servir como as outras obras de Deus, às quais é chamado à submeter; nem um ÍDOLO, ao qual renda o louvor devido unicamente a Deus.

O SER HUMANO, NOSSO SEMELHANTE, É AQUELE QUE DEVEMOS AMAR COMO À NÓS MESMOS, QUE DEVEMOS RESPEITAR COMO UMA PESSOA.

Dimensão específica: A Igreja, a Realização do Projeto Divino e comunhão com Ele e entre os homens

O homem pecou quebrando sua comunhão com Deus e com seu semelhante, mas Deus em sua misericórdia retomaria a execução do seu projeto. Deus convoca Abrão para sair de seu pequeno círculo familiar para abraçar a grande família humana. Este não é um chamado a abandonar os seus, mas a alargar as fronteiras de sua doação de si. Os seus estão dentro da grande família humana que é sua e está sob a sua responsabilidade.

O Senhor escolhe um povo, pactua com ele uma aliança, como figura do que haveria de vir em Jesus Cristo: uma sociedade fundada na Graça divina, cuja finalidade seria dar a vida em plenitude, vida em abundância para todos os seus membros.

Jesus estabelece a União:

Jesus veio estabelecer a comunhão entre os homens e Deus e os homens entre si. Jesus destruiu o muro de inimizade que havia entre Deus e os homens. Jesus é a nossa paz. Foi ele quem fez dos povos uma única humanidade e a reconciliou com Deus pela virtude da cruz

(Efe 2, 12-18). A reunião dos pagãos e judeus em Cristo representa bem o papel da Igreja de resgatar a comunidade humana. Em Pentecostes, pelo derramamento do Espírito de Deus nos corações dos homens esta reconciliação se concretizou plenamente. O amor de Deus foi derramado nos corações dos homens e agora eles podiam viver sua vocação para o amor, para a comunhão, para a unidade. Os homens de todas as nações ouviram em unidade “a publicação em suas próprias línguas das maravilhas de Deus!” (At 2, 11), pois a diversidade das línguas não mais lhes servirá de empecilho à união.

É a união, a comunhão, a amizade. Sobre Cristo, a pedra angular, se levanta harmonicamente um templo santo no Senhor.

Em Jesus Cristo e através da Igreja, a dimensão social adquire um horizonte infinitamente vasto e profundo, porque ultrapassa o plano natural, suplanta os confins do tempo e abrange também a eternidade: além da associação fundada sobre a natureza, dá-se a associação fundada na Graça, que estabelece entre os homens uma comunhão de vida, de intenções e de amor totalmente adequada para fazer dos seres humanos juntos, um só ‘corpo’ o ‘corpo místico de Cristo’. Assim, os homens formam uma só família, porque são filhos de um mesmo Pai, Deus, e irmãos do Filho de Deus que se fez homem, Jesus Cristo. A Igreja foi edificada e espalhada no mundo pelos Apóstolos , e continua a ser construída através dos séculos fazendo de nós concidadãos dos santos e membros de uma única família, a família de Deus” ( Gaudium et spes n.13 e Documento da vida fraterna ns. 9 e 10)

Dimensão Pessoal: A Vida Consagrada como Sinal e Intrumento de Comunhão

A vida consagrada é um chamado de Deus, um dom de Deus. É um dom para a construção da fraternidade. Aqueles que são chamados a uma vida consagrada são chamados a construir juntos a unidade , a comunhão, a família de Deus, pois além da vocação à salvação, à santidade, ao amor, Deus escolhe algumas pessoas para uma vida de maior intimidade com ele e as destina a cumprir uma missão em favor dos demais.

A vocação possui um carisma específico pata transformar a realidade temporal. A vocação Shalom tem a missão de promover a paz, por isto ser Shalom é ser discípulo da paz.

Para os que pertencem à uma família religiosa sua missão no mundo coincide com o carisma desta.

O ser humano é criado único, irrepetível e por isto tem um papel único no mundo e na família religiosa. Cada pessoa tem uma contribuição, tem uma missão na família religiosa e no mundo.

A missão está irrevogavelmente ligada aos outros. Ninguém pode construir a sua história sozinho. O projeto de vida de um vocacionado não é separado do projeto de vida da comunidade. Cada vocacionado tem uma missão única dentro do carisma da comunidade religiosa. Esta missão dá sentido à sua história pessoal e deve construir seu futuro. É vivendo a vocação com fidelidade que se descobre a missão pessoal. É trabalho de Deus e da escuta do homem. Nós não somos acostumados a ler os acontecimentos da nossa vida e interpretá-los à luz da vocação.

Assim a vocação:

1- Faz ver Deus na nossa história;

2- Faz encontrar o sentido da nossa história de vida;

3- Cura as nossas lembranças;

4 – Torna úteis os sofrimentos, nos fazendo chegar ao ponto de achá-los imprescindíveis para a descoberta e desenvolvimento da nossa vocação.

Via Comunidade Shalom